quinta-feira, novembro 17, 2005

Malmequer...


- Mas fala-me entao dela.
- Ela?
- Sim, conta-me outra vez. Sempre senti que te faltava dizer alguma coisa.
- Já te falei que.... por vezes fazia-me lembrar uma margarida. ou um "malmequer"!
- Uma flor?
- Náo... um "malmequer"! Daqueles a quem se arrancam as folhas e se espera uma boa providencia.
- Percebo. Sabes, tudo depende da primeira folha, o final é o resultado único da primeira petala...Não interessa quantas tiras, se a primeira foi a errada. Mas porque se parecia ela com um "malmequer"?
- Talvez por isso mesmo. De qualquer forma, amarelo e branco nao eram as suas cores.
- Fala-me da sua poesia. Todos temos algo de grande e épico e ...Poético.
- E pequeno e mesquinho e envergonhado....serás tu um poeta?
- Serei? Seras tu?O que sabes afinal de poesia?
- O suficiente para me manter na minha prosa! o texto corrido é livre e nao mente, o poeta enforca-se na rima e perde a sua linha. O poeta é sempre um mentiroso!
- Entao mente se conseguires! Mais vale uma boa mentira que uma meia verdade!
- Custa-me mentir. Ela...

...havia nela eloquencia e poesia
quando os seus olhos me falavam
das palavras que nao me diziia

E criava a cadencia que no nada surge
sao as sombras que sempre me escapam
sobre esse tempo que urge

entao diferentes eram os dias
como estes os sao da noite
em que estranhas e incertas alegrias
marcavam em mim o seu açoite

Mas era ver-me por inteiro
reflectido nos muros de quem se esconde
ser o ultimo em primeiro
ter o poder de quem nada pode.

- Engraçado. Pensei ter-te ouvido dizer que ela aera apenas alguem que te atrofiava, que se escondia e se mostrava ao sabor de estranhos humores que nao conseguiste jamais adivinhar. Que perdias o teu fio nos nós da sua conduta, chegando a aborrecer-te por coisa nenhuma e indo ao ponto de nao teres afinal a certeza de quenato tinha gozado contigo.
Que te frustava ser preso de ti mesmo, numa cela de vento que montaste em teu redor. Hospede inicial, cativo por perderes a chave.
Pareceu-me ainda ouvir o silencio. Esse silencio de quem pensa nada mais ter a dizer. Conversas e risos que nunca existirampor temor de afundar um navio afinal ja naufragado.
- E se foi isso que disse, chamavas-lhe apenas....
- Se era isso que querias dizer, devias ser poeta. Só os poetas mentem a dizer o que sentem, nao é?
- Mas eu nao menti!

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